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Sou tantas e sou uma... Existo e sumo... Mergulho e retorno... Intensa, curiosa, aprendiz, crítica, sensível... Por vezes sábia. Vivendo na montanha-russa, em altos e baixos constantes... Metamorfose ambulante. Eu? "Contradigo a mim mesmo porque sou vasto" (Walt Whitman)

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

Jung e Alquimia (texto)

Como psicóloga e arteterapeuta, de base junguiana, tive alguns mestres que considero geniais e que me inspiram sem parar, além de algumas linhas psicoterapêuticas e analíticas que também considero enriquecedoras, tais como: W. Reich e as psicoterapias corporais, S. Freud e a Psicanálise, Fritz Perls e a Gestalt Terapia, Jacob Levy Moreno e o Psicodrama... e, principalmente, o grande Carl Gustav Jung e sua Psicologia Analítica. E uma das coisas mais interessantes na vasta teoria dele é a relação que faz do processo terapêutico com a antiga Alquimia (que também é uma das bases da Astrologia, especialmente no que se refere a teoria das correspondências, e da Homeopatia, no que se refere ao método explicativo). Abaixo alguns trechos sobre como Jung faz essa relação, que foram escolhidos para um trabalho de grupo que fizemos (eu, alguns colegas e o professor Carlos Bernardi) na faculdade. Vale a pena ler!

“O que torna a alquimia tão valiosa para a psicologia é o fato de suas imagens concretizarem as experiências de transformação por que passamos na psicoterapia...”
“Cedo percebi que a psicologia analítica coincidia de modo bastante singular com a alquimia. As experiências dos alquimistas eram, num certo sentido, as minhas próprias experiências, assim como seu mundo era meu mundo. Foi, com efeito, uma descoberta marcante: eu encontrara a contraparte histórica da minha psicologia do inconsciente”.
“A real natureza da matéria era desconhecida do alquimista; ele tinha meros indícios a respeito. Ao tentar explorá-la, projetou o inconsciente sobre as trevas da matéria, a fim de iluminá-la... Enquanto fazia suas experiências químicas, o operador passava por determinadas experiências psíquicas que lhe pareciam ser o comportamento particular do processo químico. Como se tratava de uma questão de projeção, ele naturalmente desconhecia o fato de a experiência nada ter a ver com a própria matéria. Ele experimentava sua projeção como uma propriedade da matéria; mas sua experiência, na realidade, era do próprio inconsciente.”
(Jung, Psicologia e Alquimia)

Todo o desconhecido e vazio é preenchido com projeções psicológicas; é como se o próprio fundamento psíquico do investigador se espalhasse na obscuridade. O que ele vê ou pensa ver na matéria são principalmente os dados de seu próprio inconsciente projetados.
O que torna a alquimia tão valiosa para a psicologia é o fato de suas imagens concretizarem as experiências de transformação por que passamos na psicoterapia; é uma anatomia da individuação.


O método de explicação da Alquimia é
(reparem a relação com os princípios da Homeopatia):
“O obscuro pelo mais obscuro e o desconhecido pelo mais desconhecido”

Teoria das correspondências (reparem na relação com a Astrologia):
Segundo essa teoria qualquer coisa que aconteça em um plano da realidade produz um efeito correspondente sobre outro nível da realidade. Todos os mundos são paralelos e congruentes. Realizar uma operação no nível físico causa impacto no nível espiritual.
Do ponto de vista da alquimia interior, as operações físicas simbolizariam o esforço que o ego deve fazer para compreender as experiências imaginativas e integra-las em sua vida, as vezes um sonho ou uma visão requer atuação no mundo material.
Extrair significado de experiências interiores e aplicar suas lições a vida exterior também corresponde a faceta física da obra. Não podemos permanecer sempre em estado visionário (imaginativo) é essencial que o individuo dê expressão física a tais experiências.
Os dois mundos interior e exterior estão muito mais ligados do que podemos perceber e o trabalho feito em um deles alimenta o trabalho do outro.
“o que está em cima é como o que está em baixo”


FASES DO PROCESSO ALQUÍMICO
1. NIGREDO
“Quando vires o negro alegra-te, pois é o início da tua obra”.
É o que acontece no início da análise: opostos entrando em guerra. O dragão está dentro do vaso hermético onde nada entra nem sai.

2. ALBEDO

Para os alquimistas o branco é a luz celestial, a clareza e o entendimento.
É a fase da análise em que já se compreende, mas de forma ainda intelectual.

3. CITRINITAS
O amarelecimento vai ajudar a tirar a brancura da albedo, o monoteísmo do branco, nos fazendo encarar o mundo sem vê-lo apenas como projeção.
Páginas, dentes ou dedos amarelados que remetem à putrefação ruína e decadência.
O amarelecimento não somente deteriora a psicologia branca da albedo como inicia a conversão do interior para o exterior.

4. RUBEDO

Leva sempre a alguma meta. É quando se sai do intelecto e volta para o mundo, para o corpo, para vivenciar o social; sai da esfera privada para a pública; é o sol renascido; é o vermelho - só o sangue pode reavivar.
“Na linguagem dos alquimistas, a matéria sofre até que o nigredo desapareça, quando a aurora será anunciada pela cauda do pavão e um novo dia nascerá, o leukosis ou albedo. Mas nesse estado de “brancura” não se vive, na verdadeira acepção da palavra; é uma espécie de estado ideal, abstrato. Para insuflar-lhe vida, deve ter “sangue”, deve possuir aquilo a que os alquimistas chamam o rubedo, a “vermelhidão” da vida. Só a experiência total da vida pode transformar esse estado ideal do albedo num modo de existência plenamente humano. Só o sangue pode reanimar o glorioso estado de consciência em que o derradeiro vestígio de escuridão é dissolvido, em que o diabo deixa de ter uma existência autônoma e se junto à profunda unidade da psique. Então, o opus magnum está concluído: a alma humana está completamente integrada”.
Carl Gustav Jung

A escolha do momento oportuno

Para os alquimistas toda pressa era motivada pelo demônio; apressar-se viola a evolução gradual de acordo com o tempo. Viver de acordo com o tempo faz diferença entre o sucesso e o fracasso.
“todos os que buscamos essa Arte não podemos atingir resultados úteis senão com um alma paciente, laboriosa e solícita, com uma coragem perseverante e com uma dedicação contínua”.
“aqueles que possuem esse mistério serão objeto de escárnio dos homens e serão olhados com uma atitude de superioridade”
Isso é o trabalho da psicoterapia: ninguém que se encontre fora dele consegue entender, será desdenhado e ridicularizado, pelo ponto de vista do coletivo convencional, quer de outra pessoa quer da própria sombra de quem estiver envolvido.

Banho Maria
Maria Profetisa, a primeira alquimista, nascida no século I ou II d.c., inventou um método de aquecimento suave e gradual, o banho maria. Usado como metáfora alquímica, ele indica que o início da análise deve ser lento. O analista deve ter a sensibilidade de perceber a temperatura adequada para o paciente suportar conscientizar-se de seus complexos.
Os alquimistas achavam que não tinham controle sobre as operações e que não eram responsáveis por fazê-las funcionar. Eram, sim, responsáveis por manter um fogo adequado, estimulando as substâncias em sua própria transformação natural e orgânica. Isso corresponde ao papel do terapeuta, sua atividade é controlar o calor do setting analítico, este deve estar a uma temperatura precisa para que os processos interiores comecem a ocorrer. Se o calor for excessivo, a obra se arruina e, se for escasso, não consegue promover os processos necessários. Assim era a regulação do calor para os alquimistas diante do processo de transmutação do chumbo em ouro.
Na alquimia, sujeito e objeto se misturam. O herói se relaciona com o dragão e chega a ser fecundado por ele ao invés de matá-lo. A retórica da alquimia é como bem receber o dragão (o inconsciente, o sintoma, aquilo que fala); não é a retórica do ego heróico, mas do ego imaginal, aquele que realmente ouve o inconsciente.
Dragão Alquímico

2 comentários:

Igor Fernandes disse...

Excelente post, Regina. Realmente Jung e esses outros pensadores inspiram. Bom seria se todos fossem atingidos ainda que só por um momento por essas idéias e pudessem fazer delas uma luz, não para seguir atrás, mas para iluminar os caminhos que podem assim ser escolhidos.

bjs

leocorrearj disse...

Oi Rê,
Que beleza. Adorei seu blog,mostra bem a pessoa maravilhosa e rica de espírito que vc é.
Beijos,minha querida,
Parabéns!