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Sou tantas e sou uma... Existo e sumo... Mergulho e retorno... Intensa, curiosa, aprendiz, crítica, sensível... Por vezes sábia. Vivendo na montanha-russa, em altos e baixos constantes... Metamorfose ambulante. Eu? "Contradigo a mim mesmo porque sou vasto" (Walt Whitman)

sábado, 24 de novembro de 2007

PERSONA














PERSONA

(Regina Milone)


“O homem tem duas almas: uma que olha de dentro para fora e outra que olha de fora para dentro”.

(Machado de Assis)


Carl Gustav Jung, médico suíço, psiquiatra e criador da Psicologia Analítica, viveu de 1875 a 1961. Possuía visão holística do homem, isto é, via a relação das partes com o todo e não só das partes entre si, visando administrar essas partes para alcançar a totalidade. Essa é a busca do que ele chamou de “processo de individuação”, que podemos ver descrito em imagens e diferentes etapas nos contos de fada, nos mitos, nos sonhos, etc. Para Jung, nascemos “self” (= totalidade), mas para nos adaptarmos socialmente vamos nos afastando dele, criando máscaras (= personas) e é no processo de individuação, que dura toda a nossa vida, que cada um pode “vir a ser o que o indivíduo é de fato”, chegando novamente à esse “self”. É no processo de individuação que nós vamos nos diferenciando e desenvolvendo.

O passo preliminar desse processo é o desvestimento das falsas roupagens da persona. A palavra “persona” significa “expressar-se através de uma máscara” e vem do teatro grego pois, para os antigos, persona era a máscara que o ator usava segundo o papel que ia representar.

Segundo Jung, para estabelecer contatos com o mundo exterior e adaptar-se às exigências do meio, assume-se uma aparência artificial que não corresponde ao ser autêntico. Esta aparência seria a persona (na verdade, usamos várias personas, segundo Jung).

Podemos ver as personas como fachadas criadas de acordo com as convenções coletivas, quer no vestir, no falar ou nos gestos: persona de professor, de médico, de militar, etc.

A persona é um sistema útil de defesa, mas, quando é muito valorizada, o ego consciente pode fundir-se com ela e o indivíduo ficar reduzido aos seus cargos e títulos, isto é, à sua casca de revestimento. Dessa forma, ele se afasta do seu “self”, que representa suas verdadeiras potencialidades.

Segundo Jung, existe uma oposição entre os arquétipos (carga com a qual nascemos) da persona e da sombra. A “sombra” representa a parte de nossa personalidade total que nos causa repugnância. O excesso de “persona” pode reprimir totalmente a “sombra” e esta, então, é projetada, gerando injustiças e preconceitos como, por exemplo, a discriminação racial (projeção da sombra coletiva).

Um exemplo da oposição Persona X Sombra, é o personagem com dupla personalidade do romance “O médico e o monstro”, Dr. Jekyll e Mr. Hyde, onde o primeiro é o médico sensível e bondoso – persona - e o segundo um monstro insensível e criminoso – sombra -, representando os dois lados (polaridades opostas) da mesma pessoa.

A esse respeito, Jung dizia: “Tenha a doçura das pombas, mas também tenha a astúcia da serpente”.



Persona é:

- o falso “eu”

- máscara

- sedutora

- proteção necessária (não ter persona é ficar kamikaze na vida)

- expansão

- ferramenta na nossa estruturação egóica

- arquético da adaptação social

- pseudoego: faceta externa de adaptação do ego (no início o ego se encontra na persona, formada para atender à expectativa dos pais)

- compromisso do ego com o mundo externo (identidade social)

- como a pessoa é perante a sociedade

- desempenhar um papel social

- parecer isto ou aquilo

- compromisso entre o indivíduo e a sociedade: nome, título, ocupação, etc.

- atitudes em relação ao mundo

- imagem de si mesmo apresentada ao mundo

- mediadora entre o ego e o meio externo

- cartão de visita


“A barba não faz o filósofo”

(Plutarco)


A persona pode ser mais genuína ou pode ser pura representação e aparência (falsa e mal intencionada). A persona genuína pode ser, por exemplo, um papel que você desempenha vindo de dentro – exemplo: o de neta, o de professora etc – e, nesse caso, é sincero e pode estar ligado a um arquétipo – por exemplo: a persona de neta respeitosa diante da “velha sábia”.

A persona expressa-se em imagens de roupas, uniformes, máscaras, nudez, transparências, estar descalço, etc. Por exemplo: um professor que sonha estar dando aula nu – este sonho pode ter, a princípio, dois significados opostos: ou ele está exposto demais, precisando se preservar e firmar seu papel (persona) de professor, ou está usando máscara demais de professor e, por isso, precisa se expor mais.

O grupo social/profissional pressiona para que o indivíduo assuma valores impostos de fora para dentro. A originalidade não é bem acolhida e o padrão de normalidade pode abafar as manifestações criativas.


“Em benefício da imagem ideal, à qual o indivíduo aspira moldar-se, sacrifica-se muito de sua humanidade”.

(Jung)


Toda máscara é bidimensional, isto é, é uma fachada que não contém a terceira dimensão, que seria a verdadeira individualidade (não contém o “self”). A rigidez, associada à morte e à petrificação, é um atributo da máscara. Por isso, muitas vezes, um grau intenso de rigidez imposto pela persona impede a manifestação original, a capacidade de fantasiar espontaneamente, etc.

Quanto maior a persona, menor a individuação, e quanto menor a persona, maior a capacidade de sonhos e fantasias ligadas ao elemento cósmico, ao tempo/espaço infinitos, às conexões simbólicas, astrológicas, lunares, etc.


“A personalidade consciente, como se fora uma peça entre outras num tabuleiro de xadrez, é movida por um jogador invisível. É este quem decide o jogo do destino e não a consciência e suas intenções”.

(Jung)


“Assim, pois, encaro a perda do equilíbrio como algo adequado, pois substitui uma consciência falha, pela atividade automática e instintiva do inconsciente, que sempre visa a criação de um novo equilíbrio; tal meta será alcançada sempre que a consciência for capaz de assimilar os conteúdos produzidos pelo inconsciente, isto é, quando puder compreendê-los e digeri-los”.

(Jung)


De maneira geral, podemos fazer dois usos da persona: um defensivo/patológico (identificação com a persona = normopata) e um criativo, como acontecia, por exemplo, no teatro grego.



Teatro Grego


Nasceu das danças e dos versos improvisados nos rituais dionisíacos. Os gregos consideravam Baco (nome latino de Dioniso ou Dionísio) protetor das belas-artes, em particular do teatro, originado nas representações que faziam por ocasião das festas em honra ao deus.

Viver dezenas de vidas, representar diversos papéis ao mesmo tempo e transformar-se em outras divindades faziam parte do teatro grego.

Téspis, o primeiro ator do teatro grego, simulava ações de outrem e suscitava toda sorte de sentimentos na platéia. Suas encenações correspondiam às paixões do público e, então, acontecia o fenômeno da catarse, entendida como “a purificação das almas através da descarga emocional provocada pelo drama”.

Téspis tornava-se um guerreiro, um deus, um representante dos desejos dos cidadãos, um profeta, um impostor, etc. E todos participavam, concordando ou discordando (o teatro grego era bastante interativo; a platéia tinha participação ativa), cantando com o coro, aplaudindo ou atirando pedras.

As máscaras, antes de Téspis, eram dotadas de feições animais.

Cabia ao ator representar com o rosto, o corpo e as máscaras.

Para Aristóteles, a “catarse” é muito importante porque “ao inspirar, por meio da ficção, certas emoções penosas ou malsãs, especialmente a piedade e o terror, ela nos liberta dessas mesmas emoções”.

A tragédia e a comédia faziam parte do teatro grego.

O conteúdo da tragédia era o mito (inicialmente apenas a lenda de Dionísio).

A comédia só apareceu um século depois da tragédia. Raízes de ambas: festas dionisíacas – elementos solenes do ritual: tragédia; partes alegres: comédia.

Na comédia, muitas vezes as máscaras exprimiam caricaturas ou personagens imaginários.

O primeiro estágio da cena cômica era denominada “comédia ática antiga”. Na “comédia ática nova” a máscara adquiriu características de símbolos.

Existiram mais de quarenta tipos diferenciados de máscaras para a comédia, no teatro grego.



OBSERVAÇÃO E REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


Esta pesquisa sobre “Persona” e “Teatro Grego” foi feita por mim, Regina Milone, pedagoga, astróloga, arteterapeuta e psicóloga, para ministrar palestra sobre o tema "Persona, Papéis Sociais e Máscaras", no consultório de Beatriz Portella, arte-terapeuta , em 1999.

A pesquisa baseou-se em aulas assistidas no curso de Pós-Graduação de Psicologia Analítica do IBMR (Instituto Brasileiro de Medicina e Reabilitação), no Dicionário de Mitologia Greco-Romana da Abril Cultural e na coleção “Mitologia”, volume terceiro, também da Editora Abril Cultural.


5 comentários:

Waldir Romero disse...

Regina,
Adorei!
beijos

Analuka disse...

Olá, pesquisando sobre PERSONA, cheguei aqui... e foi um prazer ler o teu texto!... Muito informativo e interessante, e ajudou bastante a elucidar algumas questões. Abraços alados azuis.

Regina Milone disse...

Muito obrigada, gente!!!
Beijos...

Roberto Lazaro disse...

Boa postagem! Parabéns. Lembre-se que o Dr tem sua sombra e o Monstro também. Quando manifesta o monstro o Dr. desaparece e vice-versa. Então o monstro não é a sombra do Dr. e jamais fora!

Regina Milone disse...

Obrigada pelo toque, Roberto!
Beijos...